A força da palavra

A força da palavra

 

sem a Folha de S. Paulo, eu não teria feito este trabalho, sem a orientação e a escuta dos editores com os quais eu trabalhei, teria sido impossível realizar as entrevistas reunidas no livro A força da palavra (1)

foram quase todas com francófonos

da França e de outros países como, por exemplo, o filósofo Jacques Derrida, da Argélia, o romancista Ben Jelloun, do Marrocos, o poeta Edouard Glissant, da Martinica, a biógrafa de Eva Perón, Alicia Dujovne Ortiz, da Argentina

já por aí dá para deduzir que A força da palavra é um livro mestiço

a questão da mestiçagem é, aliás, uma das três questões que enformam o conjunto

são elas: o que é ser mestiço, o que é ser um exilado e o que é ser um escritor

foi para responder a essas questões que eu entrevistei os diferentes escritores e intelectuais, e é sobre o que aprendi com o trabalho, sobre a peculiaridade da entrevista com escritores e intelectuais, que eu posso falar e gostaria de dizer algumas palavras

primeiramente, sobre o objetivo desse tipo de entrevista

nela, o que interessa não é a vida da pessoa, mas o modo de existência do autor

isso significa que a gente se vale da entrevista para induzir o entrevistado a refletir sobre a forma como o autor entra em cena e sobre os recursos utilizados para dar expressão à coisa que existe em estado de matéria bruta e exige o trabalho de lapidação para se tornar uma obra de arte ou uma obra teórica

nisso que eu acabo de dizer há um pressuposto: o de que é preciso diferenciar o autor da pessoa

noutras palavras, o autor é uma função, que pode ou não se renovar na pessoa

ninguém, aliás, ignora o medo que o criador tem de deixar de criar

quem sabe da diferença entre o autor e a pessoa poderá facilmente interessar o entrevistado na entrevista, porque, também para o entrevistado, o autor é um enigma

eu diria que a boa entrevista com intelectuais e artistas é aquela em que tanto o entrevistado quanto o entrevistador desejam entender o ato de criação

não é preciso acrescentar que, nesse caso, não existe luta de prestígio entre os dois e a entrevista resulta num encontro

isso, aliás, implica uma certa maneira de proceder em que a gente orienta a entrevista, porém não dirige o entrevistado

se prepara, lê o livro e formula as questões

depois, se deixa nortear pelo roteiro, mas não se submete a ele, não evita o desvio, porque é através deste que o autor pode se revelar

em outros termos, o entrevistador não é avesso à surpresa, porque ele sabe o quão longe a surpresa pode levar

ele aceita correr o risco de se desviar, mesmo porque, depois de ter escutado o entrevistado, ele dispõe do tempo da escrita, que obviamente não é o da simples transcrição

quem quer transmitir ao leitor o perfil do autor tem que editar a fala do entrevistado, o que não significa banalizá-la através de clichês, e sim dar ênfase às palavras que são efetivamente reveladoras, escrever à maneira do escritor, de quem só se submete às palavras porque sabe da sua extraordinária força

isso requer uma postura ética, exige do entrevistador que ele use, mas não abuse, do poder que o jornal lhe deu

mesmo porque o abuso é rapidamente detectado pelo entrevistado e significa o fracasso do entrevistador

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1. No lançamento do livro A força da palavra, Anfiteatro do jornal Folha de S. Paulo, 12/08/1996. Debate com o escritor Marcelo Rubens Paiva e o jornalista Roberto D’Ávila.