A cultura da paz

A cultura da paz

 

Quem me traz é a Secretaria de Educação desta cidade. O que me traz é o PROJETO AMIZADE NO TERCEIRO MILÊNIO, um projeto de paz, e o de ensiná-la através da amizade, porque A PAZ É A VOCAÇÃO DO AMIGO (1).

Valho-me desta ocasião para contar como foi que cheguei nesse projeto, ou seja, para falar das experiências que a ele me levaram. Primeiramente, uma entrevista com um general francês, o general Gallois, piloto de bombardeio na aviação inglesa durante a Segunda Guerra Mundial e conselheiro de de Gaulle depois da guerra. Nessa entrevista, houve a seguinte passagem:

– O senhor acredita que haverá guerra sempre?
– Sim, enquanto houver homens. Porque os homens são tolos e não há como mudá-los.

A resposta me leva a reler Freud, o artigo “Ideias sobre a guerra e a morte”, de 1915. Leio que haverá guerras enquanto as condições de vida das nações forem tão diversas e o valor da vida do indivíduo diferir tanto de uma para outra nação; leio ainda que não é preciso ser um sentimental para ficar desiludido com o fato de as grandes nações não encontrarem uma maneira pacifista de acertar os conflitos. Sobretudo por serem elas as representantes do progresso tecnológico requerido para controlar as forças da natureza e prolongar a vida. Além de contraditórias, as grandes nações são contrárias a si mesmas. Noutras palavras, a nossa desilusão resulta da impossibilidade de conciliar o progresso tecnológico com o atraso de vida que a guerra significa.

Como entender esse paradoxo que determina a nossa existência? O paradoxo pode ser entendido se nós considerarmos que ninguém, nenhum de nós, acredita no próprio fim. Todos temos a convicção inconsciente de que somos imortais. A prova disso é que nós corremos repetidamente o risco de morrer. Com a droga, com o cigarro, com a velocidade…

Por um lado, não acreditamos na nossa própria morte e, por outro, o inconsciente só sabe punir o crime com a morte, como mostra a expressão tão corrente “O diabo que te carregue”. Noutras palavras, nós nos entregamos sem mais ao ódio, sem pensar nas consequências nefastas do mesmo.

Isso acaso quer dizer que estamos condenados à guerra até o fim dos tempos, como afirmou o general Gallois? Freud responde indiretamente. Afirma, primeiro, que a guerra não pode ser abolida enquanto as condições de existência das nações forem tão diferentes e a repulsa mútua tão violenta. Deixa passar um fio de esperança com a palavra “enquanto”. Porém, conclui que devemos nos adaptar à guerra, pois basta pensar na importância atribuída ao mandamento “Não matarás” para deduzir que somos produto de gerações de assassinos e que nós temos a paixão do crime no sangue.

Apesar do voto esperançoso de justiça que atravessa o texto de 1915, Freud, desiludido, acaba se entregando ao pessimismo. Ele sabia que as conquistas éticas foram alcançadas ao longo da história. Que muitas gerações são necessárias para conseguir a mudança e a sua vida terminaria bem antes dela.

Tendo lido “Ideias sobre a guerra e a morte”, cheguei à conclusão de que o otimismo é fundamental. Sem ele, não pode haver paz. Só o otimista pode se empenhar na pacificação, que tanto implica o uso das riquezas disponíveis no planeta para melhorar a nossa vida quanto a aceitação das diferenças entre os povos e os indivíduos.

Noutras palavras, a justiça social não é suficiente para que haja paz. A prática psicanalítica, na qual eu me exercitei durante três décadas depois de ter me formado em medicina, me deu subsídios para elaborar um pequeno projeto de pacificação.

À sua maneira, o psicanalista é um pacificador. Por quê? Primeiramente, porque ele escuta o outro. Em segundo lugar, porque ele é desprendido. O que o analista quer, a sua meta, é que o analisando encontre o seu caminho. O analista nunca exerce o próprio ofício opondo-se ao outro. Não responde à provocação e não se entrega à luta de prestígio, uma das principais causas de todas as guerras. O verdadeiro analista não fala para ganhar, acha melhor empatar do que vencer.

A entrevista do general, a leitura do texto de Freud e a prática psicanalítica foram da maior importância para que eu chegasse ao projeto, mas, decisivo mesmo, foi o encontro que me levou a escrever O clarão, romance ao qual eu também dei o subtítulo de “Romance do amigo”, e do qual nasceu o Projeto Amizade no Terceiro Milênio.

Decisivo mesmo foi o encontro com o Carlito Maia. Quem foi ele?

Carlos Maia de Souza, o Carlito, nasce em 1924 em Minas Gerais e vem, ainda menino, para cá. Depois de ter sido um mineiro de Lavras, torna-se um mineiro de São Paulo, cidade que ele ama – com todo o seu ódio – e onde conquista uma infinidade de amigos com bilhetes e flores.

Carlito, como os irmãos, não tem como ir à escola e, talvez por isso, gostasse de citar o verso do poeta espanhol Antonio Machado: “Caminante no hay camino, el camino se hace al andar”. Carlito não vai à escola, porém aprende a ler com os jornais e, aos 12 anos, já ganha a vida trabalhando como office-boy.

Só aos 22 anos consegue “descansar o traseiro num banco de escola”, cursando a Escola Tecnica de Aviação. Sai dela como sargento e vai para a Base Aérea de Natal, onde fica dois anos. Ao voltar para São Paulo, vive como despachante, corretor de seguros etc. Até prestar exame na Escola de Propaganda e entrar em primeiro lugar. Office boy, sargento, despachante, ele se formou na grande escola da vida. Foi dos que aprendem fazendo, encontram o seu mestre no próprio ato de fazer.

Em 1964, Carlito Maia associa-se a João Carlos Magaldi e faz a Magaldi & Maia, que lança, entre outros, Roberto Carlos e a Jovem Guarda. Em 1974, torna-se gerente de comunicação da TV Globo, onde cria várias campanhas, como, por exemplo, O CORINTHIANS VAI GANHAR.

Mais do que publicitário, ele foi um filósofo popular brasileiro. Assim, ele subverteu o cartesianismo francês. Do PENSO, LOGO EXISTO, de Descartes, ele fez o PENSO NOS OUTROS, LOGO EXISTO. Suas frases são conhecidas no país inteiro e, entre as que eu atribuí ao personagem principal – o publicitário do meu romance, João –, há uma frase sobre o amor de que eu gosto particularmente, porque ela tanto diz respeito ao amor-paixão quanto à amizade: “O nosso amor de agora é só amor não é de agora”. Trata-se de uma frase bonita e verdadeira. Porque, quando a gente encontra o amado, é como se a gente estivesse a ele destinado e, quando a gente conhece o amigo, a gente simplesmente o re-conhece.

A frase que talvez melhor defina a existência do nosso filosofo popular é: “Uma vida não é nada. Com coragem, pode ser muito”. E a coragem foi o que de melhor ele me ensinou. Fez isso, comunicando através de um fax que ia morrer: “Venha me visitar antes que eu já não esteja”. Esta frase me levou a refletir sobre a morte – um tema tabu na modernidade, um tabu cujo efeito mais grave é a maior incidência da morte por acidente, violenta. Pesquisa feita recentemente no Rio, pela Universidade Federal Fluminense, mostra que a morte violenta rouba três anos de vida do homem brasileiro e que ela o atinge principalmente na sua juventude. A pesquisa explica por que eu fiz da morte um dos temas de O clarão.

Ao fazer isso, eu ganhei muito, porque quem pensa na morte não desperdiça tempo e não perde a vida. Ganhei ousando o Projeto Amizade no Terceiro Milênio logo depois de ter escrito O clarão.

A viga mestra do projeto é a ideia simples de que, através da ética da amizade, nós podemos construir a cidadania e chegar à paz. Porque o amigo escuta e ilumina, permite enxergar quando a paixão cega – a paixão do dinheiro, do sucesso, do ódio. Porque o amigo é delicado e generoso. Tem como vocação a paz e faz pouco do time is money: ganha perdendo tempo com o outro.

O saber eterno do amigo é um saber eminentemente moderno. Valioso porque pode ensinar a conter a violência e a conquistar a paz. Além de ser um pacifista, o amigo é o interlocutor do homem contemporâneo. Os absolutos religiosos já não têm sentido. Ninguém mais diz “esta é a religião verdadeira” ou “esta é a verdade” sem ser tomado por um fanático. Hoje, cada indivíduo é o produtor da sua própria verdade. Quem melhor do que o amigo para validar as crenças deste indivíduo de hoje?

O declínio da religião, concebida como um sistema de crenças dogmáticas, e a necessidade de uma nova espiritualidade são cada dia mais evidentes. A ciência pode ajudar a prever as consequências das nossas ações, mas nenhuma ciência é capaz de nos dizer como nós devemos agir numa questão de natureza moral. A nova espiritualidade implica uma conduta virtuosa, que pode encontrar na conduta do amigo o seu modelo.

Porque a ética da amizade é a da delicadeza – ou a da contenção, como diz o Dalai Lama. Uma ética que tanto ensina o cuidado quanto o respeito. Conter-se é adotar uma disciplina baseada numa avaliação das vantagens de agir de um modo ou de outro modo. O amigo se contém ou se controla, porque o controle é a condição da sua liberdade e da liberdade do outro, a condição sem a qual a amizade não existe, pois ela nasce espontaneamente porém precisa ser cultivada para se perpetuar.

Para que ela seja cultivada, eu concebi o Projeto Amizade no Terceiro Milênio, que se objetivou num primeiro tempo através do Clarão e de uma exposição, “Os Dizeres do Amigo”, enviada para as bibliotecas públicas do país. O sucesso do trabalho me levou a considerar a introdução do projeto na escola. Porque a amizade é decisiva na vida do jovem, e o aluno está naturalmente predisposto a refletir sobre ela. Com isso em vista, foi produzido um Suplemento Pedagógico para leitura do Clarão e A cartilha do amigo, que está sendo lançada hoje.

A reflexão que o projeto propõe pode fazer o aluno considerar a questão da ética e da virtude. Já que só é amigo quem é virtuoso e só quem é virtuoso pode ser um bom cidadão. Os que não são virtuosos não são amigos, eles são apenas cúmplices.

A educação será indubitavelmente melhor se nós nos preocuparmos menos com o aprendizado dos saberes todos e mais com o aprendizado do respeito ao próximo – respeito que a amizade ensina e requer e é absolutamente indispensável para o exercício da cidadania, que supõe a aceitação da lei, do limite. Como diz Montaigne, gasta-se muito para mobiliar a cabeça dos jovens com a ciência. E, com a virtude, ninguém se preocupa. Por isso, o mesmo Montaigne conclui que prefere “uma cabeça bem-feita a uma cabeça lotada”.

Noutras palavras, ciência sem consciência é a ruína da alma.

Na esperança de ter sido suficientemente clara para que a amizade se torne um tema privilegiado na educação, eu gostaria de acrescentar que, em 2001, nos Encontros de Versalhes, que reúnem ministros, embaixadores e intelectuais do mundo inteiro para refletir sobre o destino do homem no terceiro milênio, o tema foi “A Cultura da Paz” e o escritor Eric Orsenna, autor de um clássico sobre a Amazônia, A exposição colonial, também disse que educar é ensinar a paz.

Certa de que a via do futuro no planeta é esta, eu desejo a todos uma primavera pacífica e feliz, agradecendo os que nos deram a possibilidade de viabilizar a segunda etapa do Projeto Amizade no Terceiro Milênio, que eu agora entrego aos educadores presentes para que nós possamos juntos construir a cidadania no Brasil e fazer deste país quase continente um difusor mundial da paz.

Porque nós brasileiros somos originários daqui e de outras terras, destinados pela origem a promover a aceitação da diferença, que é o suporte da paz e pode resultar num verdadeiro clarão.

Muitíssimo obrigada.

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1. Conferência proferida na abertura do evento Primavera da Paz, Colégio Salesiano, São Paulo, 19/09/2003.